domingo, 6 de março de 2011

NAS FÉRIAS, LEIO


Na minha bagagem para o veraneio coisa que não pode faltar é livro. E veraneio em família é tumultuado, principalmente nos finais de semana. É um tal de comer e beber em excesso, abusar do sol, exagerar no ócio. E também de caminhadas à beira-mar, bate-papos intermináveis entre um chimarrão e outro ou uma caipira e outra, jogo de cartas. Enfim, um tempo gasto em atividades adiadas durante todo o ano que passou, por absoluta falta de oportunidade. No veraneio retomamos um tempo necessário – o nosso.


Nos dois ou três meses que antecedem o final do ano começo a reunir os livros que pretendo destinar para minhas leituras de férias. Não é tarefa fácil, embora leia bastante comumente. Livros adquiridos, uns poucos emprestados (olha, Jacira, não podes deixar de ler este..., amigos me falam), livros presenteados, ofertados por colegas escritores, e outros, vão se empilhando e se oferecendo à leitura sem qualquer modéstia. Presumo que não darei conta da pilha inteira ainda desta feita e me empenho numa seleção mais comedida que caiba dentro da escassa privacidade que me aguarda. Quase sempre incorro em erro – não cabe.


Pois neste veraneio, não imagino por que cargas d’água, realizei um feito glorioso. Li todos os livros que selecionei – foram oito livros em 26 dias de férias, numa média de 1 livro a cada 3,2 dias. Atingi, portanto, um record. Vou ficar atenta para os próximos veraneios. Talvez me supere em 2012. Mas então tomei uma decisão: quero dividir um pouco das minhas leituras com quem for ler esta crônica.


Novamente farei uma seleção – em termos de quantidade para não cansar o leitor. Vão aí alguns, portanto.


Bolero de Ravel, de Menalton Braff. Desconhecia este autor, gaúcho, residente em Ribeirão Preto e bastante premiado. Ele traz uma história que vai sendo montada pelo leitor a partir de cenas narradas pelo narrador – no caso, Adriano – o irmão que não vê sentido na vida e está convencido de que nenhuma luta, nenhum esforço vale a pena. Na contramão Laura, a irmã bem-sucedida, indiferente às coisas simples e familiares. Os pais acabam de morrer vítimas de acidente e é necessário dar um destino ao casarão da família. Cenas são vividas no presente e o passado é revivido obsessivamente pelo narrador, de forma atemporal e delirante. “Perdi uma a uma todas as ligações com a vida.”, são palavras de Adriano frente a palavras de Laura mastigadas com trágica lentidão: “Pois bem, te dou dois meses de prazo. Nem um dia a mais.”


Maria Degolada, santa assombrada , de Caio Riter. Caio é meu amigo e confrade, já um mestre na literatura infanto-juvenil, premiadíssimo e tem uma produção invejável. Pois Caio retoma a velha lenda de uma forma encantadora. O narrador conta bem junto ao nosso ouvido, pede silêncio, fala baixo, bem baixo pra não assustar. Não assustar nem a nós nem à santa, pois que ela está ali, mais presente do que nunca. Para os mais velhos é um reviver de assombrações. A leitura do livro não é propriamente leitura, é como se estivéssemos pertinho do rádio na cozinha de casa com a família reunida, ouvidos atentos, olhos arregalados, bocas entreabertas, e apenas aquela voz cavernosa saindo do rádio para nos assombrar, a voz do narrador e nosso imaginário.


As revoltas do vampiro, de Ivan Jaf. Este livro, comprei ao acaso na Feira de Porto Alegre, estava interessada em leitura de terror para crianças; tampouco conhecia o autor. Fiquei então sabendo que Ivan Jaf é criador da coleção “Memórias de Sangue, que não pára de crescer e pegar na veia do leitor.” A história do vampiro Vicente – um jovem adolescente louco por libertar-se do pai-vampiro protetor e que faz burradas pueris uma em cima da outra – é ambientada no meio da Inconfidência Mineira. Universo vampiresco se associa à História do Brasil, o que oportuniza uma troca interessante: o fato histórico aproximando-se do pequeno e jovem leitor numa leitura prazerosa e o difícil convívio entre pais e filhos adolescentes afastando-se da realidade conflitante para transmutar-se em cenas vampirescas muito bem-humoradas.


KRAKA – O domínio da classe rapinante, de Basildes Santos Martins. Deixei este livro por último, por uma razão especial. Basildes integrou o grupo de oficinandos na Oficina de Criação Literária que ministrei no Clube de Mães Vila Assunção de 2002 a 2007. Durante a oficina, tive oportunidade de tomar contato com os originais ainda incompletos e o incentivei a publicá-los. Pois bem, aí está o livro de Basildes, e eu estou muito feliz e orgulhosa. A obra trata das relações políticas e sociais e também pessoais, de justiça e de direito, do palco do poder, das oportunidades do ganho desmedido e da absoluta necessidade de levar vantagem. O autor se apoia na História e nos personagens que a fizeram. Mas sonha, como o poeta – “A flor que brotou alhures pode – por que não? – nascer sobre o estrume da KRAKA.”


Não mencionei os demais livros; talvez eu fale deles em outra oportunidade. Porém, devo voltar à fila dos que não foram selecionados para as férias de 2011, eles me pedem urgência. Mas há um recém-chegado que preciso ler para o próximo encontro da Confraria. Não tem outro jeito, vai ter que furar a fila.

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