Sapatos, luvas e maledicências

Em tempo de campanha...sempre é bom lembrar...

Sapatos, luvas e maledicências

“Eu quero um sapato! Tudo sobre uma obsessão feminina” é o título que encontrei recentemente garimpando a livraria.A autora é italiana: Paola Jacobbi. De saída me surpreende que um livro que trate de sapatos como obsessão, consiga o fôlego de encher 136 páginas. Não é pouca coisa para um objeto singular, óbvio e despretencioso. O livro promete de tudo: curiosidades, fetiches, manias, consumidores, colecionadores, adoradores de sapato. A história remonta desde a fascinação do Príncipe por Cinderela, mais ofuscado pelo sapatinho de cristal do que pela bela figura da donzela.
Ela, a autora, justifica o tema: “o sapato apresenta uma enorme vantagem em relação à roupa. Você pode ser gorda ou magra, baixa ou alta, bonita ou feia, mas pode comprar todos os pares de sapatos que quiser”. Aqui o livro apresenta uma razão que me convence. Concordo, qualquer mulher concorda. Que alívio! Existe uma peça do vestuário feminino que independe da distância em que nos encontramos do padrão de beleza. E a gente não havia se dado conta. Aleluia!
Não é o caso da roupa em geral. A cada ano, a moda dita o que será moda. Nas cabeças dos estilistas, a figura da mulher etérea, pálida, translúcida, pernas longas, corpos quase desprovidos de quase tudo. Mulheres ideais que fazem a passarela da moda. Mas e as outras mulheres, a maioria? as que circulam fora das passarelas? Foi o aconteceu com as batinhas e blusinhas do último verão. Elas invadiram as lojas, delicadas, cobertas de fitas e rendas, lindas, umas graças. Mas para uma turminha muito restrita. As demais tiveram que ficar fora...da moda.
Lembro quando o jeans entrou para valer. Calças, bermudas, macacões, saias, jaquetas. Tudo de jeans, o paraíso. Parodiando a italiana, saí à caça: “Eu quero uma saia jeans!” Não calculei a distância em que me encontrava da normalidade. Aproveito para dizer que nem era tão grande, sou uma mulher nem magra nem gorda, comum, penso. Mas a balconista – não só aquela, fiz outras tentativas – me olhou como se eu fosse uma criatura imensa, disforme e mal intencionada. Algum tempo se passou até que a indústria entendesse que o investimento em peças de jeans em tamanhos que excediam o 38, poderia resultar em bom lucro.
Existe aquela expressão bem antiga, “serve como uma luva”, para referir-se às coisas que cabem com perfeição. No geral, as luvas costumam servir em qualquer mão. Espicha-se um pouco, encolhe-se outro tanto, e elas acabam servindo, mais ou menos justas, mais ou menos folgadas. Luvas são como sapatos. Roupa se veste. Luva se calça. Igual sapato. O dito popular se consagra ainda com maior rigor na questão da instabilidade política, da corrupção fermentando em diversos setores da vida pública, do descaso com os problemas cruciais do país. Temos presenciado acusações de todo porte, desrespeito, difamações, falácias, calúnias, escândalos. Temos convivido com extorsões, mentiras, roubalheiras, agiotagens, comodismo, falta de caráter e de vergonha na cara. E no governo hoje, parece que , senão tudo, quase tudo serve como uma luva para quase todos. Pode ser até que precise passar por algum ajuste, por um trespasse, valha-se de um desvio aqui e ali, mas com certeza, irá servir. Bem diferente da moda do último verão.
É uma lástima que a câmera na TV não aponte para os pés dos representantes do povo no Senado, na Câmara de Deputados, na de Vereadores, pés de todo este pessoal que está enchendo a imprensa pedindo votos. Seria interessante apreciar-lhes os sapatos justos, modelares, sóbrios, confortáveis, cômodos, de bom gosto e caros. Valeria para a italiana a chance de acrescentar outras 136 páginas em sua obra.

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