Miniart Faces - Coleção D


Tem abertura hoje a exposição Miniart Faces - Coleção D no Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano, a partir das 19h30. A mostra faz parte do 12º Intercâmbio Internacional de Miniart, que percorreu países como Austrália, Argentina e Canadá.

Compõe a exposição aproximadamente 200 trabalhos produzidos em pequenos formatos com o tema Faces e são apresentadas obras de artistas locais e de outros 15 países.

Jacira Fagundes integra a mostra com a gravura digital "Sob véus".

Homenagem póstuma ao imortal José Saramago

Em 18 de junho de 2010 morre o imortal José Saramago, nome que deixa marca na contemporaneidade com sua literatura polêmica e inovadora. Uma das minhas preferidas, pela inovação na forma, pelos diálogos intermediando a narrativa, pela extrema atenção exigida do leitor.

Leio Saramago saboreando cada frase, cada parágrafo, busco aproximação do sujeito-autor, tento segurar em minhas mãos o tanto de possibilidade que o texto me oferece e contribui para meu ofício de escritora.

Escrevi a crônica abaixo. Foi publicada no jornal RSletras de setembro de 2009. Hoje a escolho para homenagem ao grande e imortal José Saramago.








Do blog ao livro



Há quem afirme que blog é para quem quer agitar, se expor e fazer confidências online; só bobagens anunciadas. Talvez tenha sido assim no início, com a proliferação de todo tipo de blogs fazendo da Internet um campo minado por palavras vazias e inúteis postadas em diários descuidados, vulgaridades e bate-bocas infindáveis.
Hoje a internet é espelho do mundo e os blogs se aperfeiçoaram para mostrar excelência. Não foi à toa que gente de estirpe enveredou pelo caminho da profusão blogueira e fez bonito. Falo do contingente de escritores reconhecidos que até pouco tempo o leitor só encontrava em espaços Vips das grandes livrarias. Falo de escritores premiados, dentre eles um Nobel, do além-mar, José Saramago.
Pois o que se conhece do blogueiro Saramago ainda é pouco. Que a mulher dele, Pilar, criou uma página na Internet para que ele escrevesse o que desse na telha, nos momentos de fastio literário provavelmente. Mas Saramago é escritor; e escritor só escreve literariamente porque pensa literariamente. Daí que no blog de Saramago provavelmente (falo provavelmente porque conheço os livros, não conheço o blog), foram postadas pérolas em formato de textos breves.
O blog oferece uma forma diferente de expressão que chega a muitos destinatários em tempo exíguo. Nada se compara à potencialidade do virtual, seja texto ou imagem. Escritores e artistas não resistiram ao assédio, embora reconheçam que o espaço da Internet é terra de ninguém, isento de confiabilidade e proteção onde o autoral se perde com facilidade. Mesmo assim, bons escritores continuam escrevendo, textos curtos é verdade, porque leitores de blogs parecem não resistir a textos longos ou novelas ou romances. Novamente a questão da contemporaneidade; velocidade e distância ditando normas.
Trazendo um pouco mais da história do blogueiro Saramago, sabe-se ainda que ele postou em sua página textos variados que relatam episódios de viagens, ao Brasil inclusive, algumas críticas a políticos, reflexões, registros, depoimentos e impressões. Ao fim e ao cabo, um belo arsenal de escritos que a partir de agora estarão bem acondicionados num livro, digamos, de verdade. Um livro, uma brochura revelando instigante capa, objeto nosso velho conhecido a oferecer-se com vagar aos olhos e mãos do leitor. O Caderno, este o título do livro que salta do mundo virtual para o real como simples comando copiar/colar de um programador de textos.
O blog de Saramago continua na tela do computador, percorrendo livre o espaço virtual criado. E o livro se organiza: páginas numeradas e textos em sequencia possibilitando o uso de marcador nas pausas de leitura. Do blog ao livro, uma ação procedente que agrada a uns e a outros.
Definir o que é melhor, não me atreveria. Aprecio os meios eletrônicos, a Internet, os blogs e os sites que acondicionam a boa literatura. Não só os visito regularmente, faço presença com um depoimento, uma crônica. O Orkut e o Facebook são vitrines onde realizo chamadas para meu ofício de escritora. Mantenho e atualizo meu site e o que ali posto recebe o mesmo empenho e a mesma qualidade que dedico aos livros que venho publicando anualmente.
No momento, ainda não me ocorre publicar em livro matéria postada no site ou no blog, porém não descarto tal possibilidade. Saramago prova que a ação é apenas uma diferença de suporte – a tela do computador ou o papel. Se o computador mostrou a qualidade literária, por que não formatar a mesma qualidade literária no objeto-livro? Há leitores e leitores. Há os que aguardam as postagens e se beneficiam com a gratuidade. E há os que apreciam o folhear das páginas e não se incomodam com pagar o preço.

Projeto Histórias que Pintam e I Concurso Menino do Livro

O Projeto Histórias que Pintam e o I Concurso Menino do Livro
entram na 2ª etapa

Na última sexta-feira, dia 11 de junho, a Escola Estadual de Ensino Fundamental Carlos Wortmann, do município de Canela, recebeu a Oficina de Leitura e Ilustração, conforme regulamentado no concurso que premiou o aluno Marlon de Brito, em 2009 com a Melhor Ilustração na categoria 11 a 14 anos.
Participaram da oficina, alunos da 6ª e 8ª séries e o menino Marlon de Brito, embora já não pertencente ao quadro de alunos e cursando o 1º ano do Ensino Médio em outra escola, acompanhados da Professora Tânia de Souza Lourenço, que não mediu esforços na concretização do projeto junto a seus alunos, desde a implantação do concurso em 2009.
As oficinas, desenvolvidas em 2009, em escolas e nas Livrarias Saraiva de Porto Alegre e de Caxias do Sul, usaram como suporte de leitura ou de contação da história o livro O Menino do Livro visando ilustrações de capítulos ou cenas escolhidas pelas crianças participantes.
A atual oficina renova a proposta anterior, uma vez que é dirigida a alunos que conheceram o concurso e alguns participaram enviando trabalhos, inclusive o menino vencedor. São objetivos da proposta atual:

.Oferecer à classe de alunos suporte teórico e técnico com vista à ilustração de textos literários
.Aprimorar o potencial do aluno ilustrador, oferecendo suporte teórico e técnico
.Orientar o professor na mediação da leitura do novo texto e no acompanhamento da tarefa de ilustração desenvolvida pelo aluno ilustrador

O texto oferecido para leitura foi o conto: “Cavalinho de balanço” de minha autoria, com leitura oral acompanhada por leitura individual de parte do alunado (o texto foi xerocado pela escola).
A próxima etapa é dirigida apenas ao aluno Marlon de Brito, que terá a supervisão da professora Tânia na tarefa de ilustração do novo texto que vem sendo escrito pela autora, intitulado “Bruxalisa e Lagartixa pintando histórias”.

A seguir, haverá repetição desta oficina, apoiada em novo texto, na Escola Estadual de Ensino Fundamental Vicente Neves Caparelli, de Santo Antonio da Patrulha, para a classe do menino vencedor na categoria 07 a 10 anos – Lucas Alves Cardoso.

Cavalinho de Balanço

Não há lugar para os dois dentro da casa. É uma casa pequena e modesta, mobiliário tosco. A família, maior que a desejada, se acomoda como pode nos cinco cômodos existentes. Ali todos trabalham, são gente de bem, pobres, mas de bem. Os grandes ralam no asfalto, as crianças acompanham na jornada. A avó carrega a casa nas costas, são dela todas as tarefas. Ela está gasta e doente, precisa do Zé Luiz pra tomar conta do bebê novo.
O menino quer brincar com o cavalinho de balanço – o brinquedo que o tio encontrou junto à lixeira de um prédio bacana, fez os reparos necessários, pintou de branco e presenteou Zé Luiz no dia do aniversário. O menino escapa da avó para o terreno baldio no fim da rua. Ele até quis trazer o brinquedo pra dentro e ficar perto do bebê e, assim, fazer sua parte de ajuda à avó. Mas ela não deixa, fala que na casa não há lugar para os dois. Se o menino insistir na teimosia, leva uma sova.
Então ele some e vai brincar. Vão os dois: o menino e seu assecla. Terreno demarcado, amigos de um lado, inimigos de outro, tem início a batalha. De seu território, Zé Luiz percebe o inimigo se aproximar. Vai em pé, afoito, corajoso. Equilibrando-se sobre a madeira estreita que faz de lombo do animal, avança para o ataque. O cavalo salta sobre os pedregulhos, sobre as valetas, pula o amontoado de detritos, no intuito de derrotar o inimigo imaginário e fazer do companheiro o vencedor. Pula em círculo, rodopia em piruetas na defesa do amo. O menino exige que o escudeiro siga em frente, mas então o animal embesta e ele o açoita. Tombam juntos, cavalo e cavaleiro. O inimigo zomba ao ver Zé Luiz erguer com dificuldade o companheiro sujo de lama e tomar o caminho da casa. Lágrimas rolam pelo rostinho afilado, antecipando a surra que o espera.
A avó está na porta. A vara de um verde brilhante reluz numa das mãos, a boca escancarada mostra falha de dois dentes e grita impropérios. Zé Luiz cessou o pranto; olha assustado para a carranca da avó, cara de bruxa. Solta o quadrúpede de madeira na soleira da porta e ameaça entrar, no que é impedido pela voz esganiçada: Volta, praga! Com um zumbido afiado, a vara lhe alcança a canela fina. O garoto engole o soluço e, com temor,ergue o cavalo de pau e o acomoda rápido no monturo junto a outras tralhas no lado de fora da casa. O choro vindo do lado de dentro freia a mão da velha e Zé Luiz ultrapassa a entrada feito vendaval.
Por hora, vê-se a salvo. Com o bebê no colo, encontra na cozinha a mamadeira feita e a aquece no banho-maria, confere a temperatura no dorso da mão e senta na banqueta de palha. A avó voltou aos seus afazeres. O bebê, saciado, adormeceu. O menino calcula que possa deitar o bebê no berço, aproveitando a distração da avó e então possa molhar um trapo velho e escapulir para limpar o companheiro de aventuras. A lama, depois de seca, fica difícil de retirar. Mas a velha é esperta; passou a tranca e lembra Zé Luiz dos deveres que o esperam: cortar os legumes para a sopa, juntar a roupa suja e separar as que pertencem ao bebê; depois lavá-las na bacia grande, recolher do varal e passá-las a ferro. Zé Luiz, num vai-e-vem, procura dar conta do serviço. Ai de seu corpinho franzino se tudo não ficar a contento.

A avó é ranzinza e mandona, mas nem sempre está de maus bofes. Quando lhe vem o cansaço nas pernas que a faz interromper a lida, costuma sentar na banqueta com o cigarro ordinário nos beiços e o pretinho, metade café, metade aguardente, do lado. Conta para o neto histórias de reis e rainhas aprisionados em torres de castelos. Fala que Zé Luiz já foi rei daquela casa, agora o rei é o bebê novo; depois virá outro e outro, como nas histórias de reinados. Zé Luiz gosta das coisas que a avó conta, mas prefere aventurar-se no animal de estimação, vencer as lutas com o inimigo, avançar pelas vielas desconhecidas. Ou então descansar após as batalhas travadas, deixando-se ficar sobre o lombo da criatura fantástica a balançar-se, vaidoso e belo como um rei. Quando acontece da velha cochilar, ele sai sorrateiro, dá a volta na tranca e devolve a alvura ao cavalinho. Depois traz com cuidado o brinquedo sobre os ombros e, orgulhoso, o instala no centro da peça exígua. A velha acorda e sai em busca da vara, mas esbarra no cavalinho e tropeça. O barulho desperta o bebê e o menino corre para pegar o pequeno nos braços.
Zé Luiz precisa do cavalo de madeira e a avó precisa do Zé Luiz; assim, o cerco se fecha. O cavalinho parece entender as necessidades de ambos e põe-se a balançar as patas em curva, como que se oferecendo à cena. O montador dispara no lombo do animal e cavalga intrépido, tendo à frente, preso pela cintura, um outro cavaleiro quase tão exímio montador: o bebê novo, a rir de dobrar as risadas. Na banqueta de palha, a avó exibe a ausência dos dois dentes atrás do sorriso gaiato enquanto esfrega o pano de cozinha encharcado de aguardente no joelho dolorido.

Crianças com visão aprovam os livros acessíveis

                                                                                           Anna Júlia aprova A Escolha de Camila  ...