Cavalinho de Balanço

Não há lugar para os dois dentro da casa. É uma casa pequena e modesta, mobiliário tosco. A família, maior que a desejada, se acomoda como pode nos cinco cômodos existentes. Ali todos trabalham, são gente de bem, pobres, mas de bem. Os grandes ralam no asfalto, as crianças acompanham na jornada. A avó carrega a casa nas costas, são dela todas as tarefas. Ela está gasta e doente, precisa do Zé Luiz pra tomar conta do bebê novo.
O menino quer brincar com o cavalinho de balanço – o brinquedo que o tio encontrou junto à lixeira de um prédio bacana, fez os reparos necessários, pintou de branco e presenteou Zé Luiz no dia do aniversário. O menino escapa da avó para o terreno baldio no fim da rua. Ele até quis trazer o brinquedo pra dentro e ficar perto do bebê e, assim, fazer sua parte de ajuda à avó. Mas ela não deixa, fala que na casa não há lugar para os dois. Se o menino insistir na teimosia, leva uma sova.
Então ele some e vai brincar. Vão os dois: o menino e seu assecla. Terreno demarcado, amigos de um lado, inimigos de outro, tem início a batalha. De seu território, Zé Luiz percebe o inimigo se aproximar. Vai em pé, afoito, corajoso. Equilibrando-se sobre a madeira estreita que faz de lombo do animal, avança para o ataque. O cavalo salta sobre os pedregulhos, sobre as valetas, pula o amontoado de detritos, no intuito de derrotar o inimigo imaginário e fazer do companheiro o vencedor. Pula em círculo, rodopia em piruetas na defesa do amo. O menino exige que o escudeiro siga em frente, mas então o animal embesta e ele o açoita. Tombam juntos, cavalo e cavaleiro. O inimigo zomba ao ver Zé Luiz erguer com dificuldade o companheiro sujo de lama e tomar o caminho da casa. Lágrimas rolam pelo rostinho afilado, antecipando a surra que o espera.
A avó está na porta. A vara de um verde brilhante reluz numa das mãos, a boca escancarada mostra falha de dois dentes e grita impropérios. Zé Luiz cessou o pranto; olha assustado para a carranca da avó, cara de bruxa. Solta o quadrúpede de madeira na soleira da porta e ameaça entrar, no que é impedido pela voz esganiçada: Volta, praga! Com um zumbido afiado, a vara lhe alcança a canela fina. O garoto engole o soluço e, com temor,ergue o cavalo de pau e o acomoda rápido no monturo junto a outras tralhas no lado de fora da casa. O choro vindo do lado de dentro freia a mão da velha e Zé Luiz ultrapassa a entrada feito vendaval.
Por hora, vê-se a salvo. Com o bebê no colo, encontra na cozinha a mamadeira feita e a aquece no banho-maria, confere a temperatura no dorso da mão e senta na banqueta de palha. A avó voltou aos seus afazeres. O bebê, saciado, adormeceu. O menino calcula que possa deitar o bebê no berço, aproveitando a distração da avó e então possa molhar um trapo velho e escapulir para limpar o companheiro de aventuras. A lama, depois de seca, fica difícil de retirar. Mas a velha é esperta; passou a tranca e lembra Zé Luiz dos deveres que o esperam: cortar os legumes para a sopa, juntar a roupa suja e separar as que pertencem ao bebê; depois lavá-las na bacia grande, recolher do varal e passá-las a ferro. Zé Luiz, num vai-e-vem, procura dar conta do serviço. Ai de seu corpinho franzino se tudo não ficar a contento.

A avó é ranzinza e mandona, mas nem sempre está de maus bofes. Quando lhe vem o cansaço nas pernas que a faz interromper a lida, costuma sentar na banqueta com o cigarro ordinário nos beiços e o pretinho, metade café, metade aguardente, do lado. Conta para o neto histórias de reis e rainhas aprisionados em torres de castelos. Fala que Zé Luiz já foi rei daquela casa, agora o rei é o bebê novo; depois virá outro e outro, como nas histórias de reinados. Zé Luiz gosta das coisas que a avó conta, mas prefere aventurar-se no animal de estimação, vencer as lutas com o inimigo, avançar pelas vielas desconhecidas. Ou então descansar após as batalhas travadas, deixando-se ficar sobre o lombo da criatura fantástica a balançar-se, vaidoso e belo como um rei. Quando acontece da velha cochilar, ele sai sorrateiro, dá a volta na tranca e devolve a alvura ao cavalinho. Depois traz com cuidado o brinquedo sobre os ombros e, orgulhoso, o instala no centro da peça exígua. A velha acorda e sai em busca da vara, mas esbarra no cavalinho e tropeça. O barulho desperta o bebê e o menino corre para pegar o pequeno nos braços.
Zé Luiz precisa do cavalo de madeira e a avó precisa do Zé Luiz; assim, o cerco se fecha. O cavalinho parece entender as necessidades de ambos e põe-se a balançar as patas em curva, como que se oferecendo à cena. O montador dispara no lombo do animal e cavalga intrépido, tendo à frente, preso pela cintura, um outro cavaleiro quase tão exímio montador: o bebê novo, a rir de dobrar as risadas. Na banqueta de palha, a avó exibe a ausência dos dois dentes atrás do sorriso gaiato enquanto esfrega o pano de cozinha encharcado de aguardente no joelho dolorido.

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