ANTES DE EXPIRAR O PRAZO Para nunca esquecer o 11 de setembro


A garota de botas vermelhas tem a boina combinando com as botas e o xale preto enrolado na cintura. Ela deixa apressada o elevador, bate os saltos no piso com determinação e chega empurrando a porta do 2435, com a força de um elefante. Nem precisava tanto, mas ela está atrasada; logo já pede desculpas pelas duas situações: pelo atraso e pelo baque da porta na parede. Começa a despir-se, primeiro a parte de cima, que deixa sedutoramente a descoberto. Descalça as botas e recebe o aviso que deverá permanecer com elas. A moça é impaciente, irrita-se com o óbvio, joga longe a fusô de jeans e calça-se novamente. Assim, em traje sumário, de botas e boina vermelhas, está pronta para as primeiras fotos.


O casal maduro sai indeciso do elevador. A mulher olha curiosa para a esquerda e o homem a toma pelo braço e insiste na outra direção. Está certo ele. Os dois seguem de mãos dadas, dedos entrelaçados, até o final do corredor e param diante do 2420. Ela aperta a campainha, a atendente os convida a entrar. Deixam-se conduzir até a sala; ali o casal senta-se à vontade e aguarda a chegada do médico, os exames radiológicos sobre as pernas do homem. Ela consulta o relógio no celular, toma a mão do marido, sorri. Ele afaga o rosto da mulher, brinca com os cabelos dela.


A senhora esquálida traz o dinheiro junto ao corpo. Vai para o 2417, um cassino interditado. Passa pelo segurança, cumprimenta-o e já na entrada abre a bolsinha e tira uma nota de dez dólares. Depois revira o fundo da bolsa atrás de alguns cents; mas os dólares é tudo o que tem. Adquire as fichas. Aposta cinco dólares no vinte e quatro. Atenta à velocidade da bolinha na roleta, acompanha o rodopiar rápido, depois sereno e mais sereno, e os olhos da mulher parecem sair da órbita e tomam conta do rosto desnutrido: a bolinha está ali, silenciosa, parada no vinte e quatro.


O entregador de pizza se detém na entrada do 2438. A porta está aberta mas ele não entra, apenas faz um sinal com a mão a chamar alguém. A loirinha de rabo de cavalo vem até a entrada. Ele a puxa para o corredor. Apoiados na parede os dois dão início à sessão de beijos e carícias entremeados com algumas falas. Passam-se alguns minutos e a loirinha precisa voltar ao trabalho, ela empurra o rapaz uma, duas vezes. Mas ele a mantém presa pelos pulsos e o beijo agora é ainda mais prolongado: carrega a marca das despedidas.


A doméstica da Agência de Turismo traz o filho pela mão. Deve ter oito ou nove anos a criança. Os dois entram sorridentes no 2432; o garoto recebe um apertão da recepcionista e apropria-se do bombom sobre a mesa. A seguir dedica a cada funcionária da casa um pouquinho da sua atenção e o direito a outras tantas guloseimas. Encontra a mãe de uniforme e preparando o café. O próximo passo é da responsabilidade do menino: ele entorna o líquido quente nas seis canequinhas e serve-o às moças da frente. A seguir, na cozinha, em volta da bancada, sentam-se mãe e filho a desfrutarem a primeira refeição do dia.




Houvesse o momento seguinte e a moça das botas vermelhas ensaiaria uma pose ingênua e buscaria o olhar de aprovação do fotógrafo.


Na seqüência, a mulher madura abraçaria o marido ao se confirmarem as expectativas e ambos traçariam os planos ali, antes mesmo que o médico os felicitasse.


A mulher esquálida levaria as duas mãos aos lábios e, aturdida, veria fichas e mais fichas amontoarem-se à sua frente.


O entregador de pizza seria alcançado pela loirinha de rabo de cavalo já virando o corredor e, por se tratar do horário de intervalo da namorada, ele a teria acompanhado aos beijos até a lanchonete.


Na Agência de Turismo, a doméstica e o filho dividiriam as gulodices e se fartariam de tanta doçura na mesa improvisada.



Mas o tempo ficara a dever aos que se encontravam naquele 24° andar. A explosão no prédio adiara para sempre todas as expectativas. Ainda assim a humanidade marcava seu gol de placa: entre tantas, salvara-se uma vida, ou melhor, duas por milagre. A mulher madura trazia o filho no ventre, a inseminação artificial dera resultado.


Escrevi esta crônica em 2004  em homenagem à data de 11 de setembro que ficou na história da humanidade. Em 1º de maio de 2011, Dia do Trabalho, volto a ela para celebrar uma nova data. Queira Deus, possa a humanidade vislumbrar um mundo diferente daqui pra frente. Fica o convite aos leitores deste blog: oremos por esta causa.
                                                                                                                                       Jacira Fagundes 









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Ilustrações do livro "O Legado - as fantásticas histórias de J. Corellon

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