EXPOSIÇÃO DE ARTE POSTAL DA CONFRARIA SELUS




A Confraria de Arte Postal SELUS sente-se honrada em apresentar


Exposição de Arte Postal  em homenagem à Cidade no

Seminário Cultura Cidadã: Controle Social e Corresponsabilidade

V Congresso da Cidade de Porto Alegre





Local: Saguão do auditório da FEDERASUL – Palácio do Comércio

Largo Visconde do Cairú nº 17

Dia 19 de agosto das 9 às 12 horas










Livros em versão digital

   Saiu a versão digital do livro de contos "No Limite dos Sentidos" pela FDigital.

   Brevemente o leitor terá a novela "Dois no Espelho" também em versão digital.

                                    AGUARDEM!

Revista em Família - Edição 7 - junho/julho 2011

Estou divulgando aos  leitores a Edição nº 7 da Revista em Família - educação, saúde, comportamento e cultura infantojuvenis.

Com  matérias e um projeto gráfico de excelente qualidade,  a revista apresenta Jacira Fagundes como colunista em sua Coluna Literária trazendo a crítica da obra A fantática fábrica de chocolate de Roald Dahl.

Acompanhem a coluna no site da revista: http://www.revistaemfamília.com.br/.

PECADOS DA LÍNGUA

Depois de toda polêmica, deixo minha crítica em formato de crônica.


Foi exaustiva a polêmica sobre o livro – “Por uma vida melhor” da coleção “Viver, aprender” – aprovado pelo MEC. A imprensa ocupou páginas e páginas de jornal e ampliou os noticiários televisivos (e ainda a audiência e o bolso, logicamente) com depoimentos de defesa e de acusação. O MEC preferiu não se posicionar. Se, tardiamente, constatou a besteira que fez, lavou as mãos assim como Pilatos. Mas alunos e professores e a classe dos bem-intencionados que seguem as regras da norma culta sem desconsiderar a chamada língua viva, estes deram em grita.



Não gritaram por pouca coisa. Até entre os debatedores, na intenção de estabelecer diferenças entre o que se fala e o que se escreve, houve quem fizesse concessões – erros considerados corriqueiros de concordância e de conjugação verbal – à língua falada. Pior quando, preconizando o uso da norma culta, alguns admitiram o distanciamento da linguagem popular e da chamada língua viva neste contexto. Como se falar corretamente, de acordo com as regras da norma culta, o indivíduo evidenciasse erudição ou identificasse uma elite cultural. Pois o que garante a boa comunicação é justamente o uso de linguagem acessível ao interlocutor, e esta só detém aquele que segue as regras comuns e aceitas por uma sociedade.


A flexibilidade quanto ao uso de termos ou flexões verbais, a passagem para uma conversa mais informal que admite linguagem mais popular, a articulação espontânea e outros fatores similares contribuem para a chamada língua viva, sem contudo precisar afastar-se da norma culta. O que, na contrapartida, não se evidencia – o “eles pega o peixe”, o “deusde”, a “perca”, o “mol”, o “eu soo” e outras aberrações do gênero produzem efeito de bloqueio na comunicação. Já na língua escrita, a exigência da norma culta foi unânime.


Nós, do extremo sul, temos uma questão difícil de resolver. Enquanto todo o país faz uso do você para tratamento, nós fazemos uso da 2ª pessoa – tu – para o mesmo tratamento. Este diferencial tem trazido àqueles que escrevem muita dor de cabeça.


Sem pretender puxar brasa para o nosso assado, acredito que não carregamos aqui no sul esta imensa gama de erros de concordância verbal que ocorre no norte e nordeste do país. Mas carregamos outra espécie de mau hábito – comemos os esses finais. E aí reside a maior preocupação com a língua tanto falada quanto escrita, uma vez que a qualidade de nossa fala e nossa escrita não se distancia muito.


Vejamos o que acontece conosco, os sulistas. Cada região tem seus hábitos ou sotaques ao falar; este jeito de pronunciar meio escondido ou quase não emitir os esses finais na fala nos identifica, então levamos numa boa. Isto já ficou tão sedimentado entre os gaúchos que falar pronunciando todos os esses nos parece pernóstico, distante anos luz da linguagem informal. Ao escrever, com certeza, flexionamos os plurais e colocamos os esses em seus devidos lugares. Mas aí surge o problema resultante do tratamento em 2ª pessoa – “tu” – que pede a devida concordância verbal. É o caso de: tu falas, tu dizes, tu colocas, tu manejas ou tu falaste, tu disseste, tu colocaste, tu manejaste. Os esses nos causam constrangimento e desconforto. Talvez uma pesquisa histórica nos trouxesse a razão de tal comportamento e nos fizesse melhores.


A questão é de indecisão principalmente para o escritor de literatura infantil e juvenil que pretende para seus personagens – em geral crianças e jovens – uma fala identificada com a fala de crianças e de jovens. Eu, particularmente, fico sempre em dúvida – se escolho a verossimilhança e opto por adequar a forma verbal ao nível do leitor, terei naturalmente que usar o “você” para o diálogo, se quiser permanecer na regra da norma culta. Ou, caso escolha o “tu” regional e não me disponha a abrir mão da verossimilhança, terei de incorrer em erro de concordância verbal, uma vez ou outra.


São os pecados da língua. Não tive acesso ao livro aprovado pelo MEC; desconheço se os autores teriam dedicado com seriedade um capítulo sobre a questão das diferentes linguagens regionais. Caso positivo, talvez eu até me atrevesse a defendê-lo.





Pecados da língua será publicada no jornal RSletras de junho.

Projeto de Livro de Artista



                     A leitura visual de histórias infantis



Proposta – Criação de um livro de imagens tomando por referência os contos de fadas e histórias infantis
As imagens viabilizam a confluência entre o texto literário e a arte visual como linguagens que se aproximam e se complementam sem contudo perderem a identidade própria de cada uma delas.

O livro – O livro será em formato digital, coletivo e cooperativado, com acesso gratuito na web.

Autores – Será formado por um grupo convidado de até 15 artistas visuais, com experiência em livro de artista. Cada artista será responsável por seu projeto individual, não cabendo interferência dos demais em sua técnica ou processo artístico.

Temática – As imagens criadas pretenderão identificar o olhar do adulto e o olhar da criança sobre o conteúdo da mesma história ou conto de fadas. Poderão ser olhares independentes ou mesclados numa mesma imagem, a critério do artista.
Os contos ou histórias podem ser selecionados entre as histórias tradicionais do repertório infantil ou qualquer outra história, inclusive pode ser criada pelo próprio artista. Todas as histórias terão uma sinopse que o leitor poderá acessar a partir da obra digital.





                   Linguagem visual e os contos de fadas
Texto de apoio
                                                                                                            
O prazer que experimentamos quando nos permitimos ser suscetíveis a um conto de fadas, o encantamento que sentimos não vem do significado psicológico de um conto mas das suas qualidades literárias – o próprio conto como uma obra de arte. O conto de fadas não poderia ter impacto psicológico sobre a criança se não fosse primeiro e antes de tudo uma obra de arte.

Os contos de fadas são ímpares, não só como uma forma de literatura, mas como obras de arte integralmente compreensíveis para a criança. Como sucede com toda grande arte, o significado mais profundo do conto de fadas será diferente para cada pessoa (criança ou adulto), e diferente para a mesma pessoa em vários momentos de sua vida (enquanto criança e quando adulto).

Há sempre um adulto escondido num livro infantil. E há sempre uma idéia sobre como este autor adulto pensa a criança.

A nova geração de crianças está sendo educada por computadores, internet e videogames. É uma criança que pensa diferentemente das gerações anteriores. Os escritores e os artistas visuais precisam explorar esta nova maneira de ler da criança oferecendo mais multimídia, mais imagem complementando o texto, diferentes estruturas.

A imagem/ilustração deve trazer informações ou idéias complementares não expressas em palavras no texto literário, mas possíveis e passíveis de interferências a partir do texto – percepções e elementos artísticos que precisam ser lidos. Deve ampliar e enriquecer o universo significativo do texto, chamando atenção para a linguagem visual.

Nossa formação em termos de cultura visual é insuficiente. Mais do que ter passado por processo de alfabetização visual é importante despertar interesse contínuo sobre este tema.



Uma das características da programação da Casa M, aberta recentemente ao público em POA, é a confluência de linguagens além das artes visuais como música, teatro e literatura. A idéia é estimular o público de cada linguagem a se alimentar de outras. Ao mesmo tempo reflete um dado da produção artística contemporânea, que traz referências exteriores ao que convencionalmente se entende como próprio do campo das artes visuais. Em Uma casa para a Bienal – notícia Zero Hora – 24/01/2011













Projeto Arte Postal

Minicontando com imagem

A Confraria de Arte Postal Sellus, que reúne artistas voltados a Arte Postal e Livro de Artista, lança projeto para artistas locais e internacionais, de criação de imagens relacionadas à literatura no gênero miniconto.
A partir da escolha de um ou dois minicontos de autoria de artistas confrades, o artista visual reflete seu olhar sobre os temas propostos expressando nova leitura através da imagem criada.
Consulte o site da escritora Jacira Fagundes: www.jacirafagundes.com - Minicontos. Seguem alguns exemplos:

Tema escolar

O tema escolar pedia pesquisa sobre efeitos do álcool no organismo. Junto ao texto a indicação de bibliografia consultada. Ela abdicou de todas as fontes. Tinha em casa o modelo vivo – sua mãe.

Bela adormecida

Tinha fissura pela Bela adormecida. Bela privava de tudo na casa; a única proibição era o sofá novo. Porém a gata não entendia e ficava de olho espichado para o sofá emitindo miados longos por horas a fio. O sonífero no leite era só para evitar a ressonância.

Fatalidade

Perseguiu a juventude como quem, diligente, professa crença religiosa. Perseverou nos ritos e ofereceu o corpo em consagração.
Não fez conta do tempo: descobriu-o inclemente, já tarde demais para reparos.

Santo de casa

Os vizinhos comentavam o quanto a mãe era uma santa para suportar aquele marido violento e beberrão.
Quando o pai passou a abusar dela, esperou em vão por uma atitude daquela santa.
Matou os dois enquanto dormiam na cama ao lado. Sempre soube que santo de casa não faz milagre.







ANTES DE EXPIRAR O PRAZO Para nunca esquecer o 11 de setembro


A garota de botas vermelhas tem a boina combinando com as botas e o xale preto enrolado na cintura. Ela deixa apressada o elevador, bate os saltos no piso com determinação e chega empurrando a porta do 2435, com a força de um elefante. Nem precisava tanto, mas ela está atrasada; logo já pede desculpas pelas duas situações: pelo atraso e pelo baque da porta na parede. Começa a despir-se, primeiro a parte de cima, que deixa sedutoramente a descoberto. Descalça as botas e recebe o aviso que deverá permanecer com elas. A moça é impaciente, irrita-se com o óbvio, joga longe a fusô de jeans e calça-se novamente. Assim, em traje sumário, de botas e boina vermelhas, está pronta para as primeiras fotos.


O casal maduro sai indeciso do elevador. A mulher olha curiosa para a esquerda e o homem a toma pelo braço e insiste na outra direção. Está certo ele. Os dois seguem de mãos dadas, dedos entrelaçados, até o final do corredor e param diante do 2420. Ela aperta a campainha, a atendente os convida a entrar. Deixam-se conduzir até a sala; ali o casal senta-se à vontade e aguarda a chegada do médico, os exames radiológicos sobre as pernas do homem. Ela consulta o relógio no celular, toma a mão do marido, sorri. Ele afaga o rosto da mulher, brinca com os cabelos dela.


A senhora esquálida traz o dinheiro junto ao corpo. Vai para o 2417, um cassino interditado. Passa pelo segurança, cumprimenta-o e já na entrada abre a bolsinha e tira uma nota de dez dólares. Depois revira o fundo da bolsa atrás de alguns cents; mas os dólares é tudo o que tem. Adquire as fichas. Aposta cinco dólares no vinte e quatro. Atenta à velocidade da bolinha na roleta, acompanha o rodopiar rápido, depois sereno e mais sereno, e os olhos da mulher parecem sair da órbita e tomam conta do rosto desnutrido: a bolinha está ali, silenciosa, parada no vinte e quatro.


O entregador de pizza se detém na entrada do 2438. A porta está aberta mas ele não entra, apenas faz um sinal com a mão a chamar alguém. A loirinha de rabo de cavalo vem até a entrada. Ele a puxa para o corredor. Apoiados na parede os dois dão início à sessão de beijos e carícias entremeados com algumas falas. Passam-se alguns minutos e a loirinha precisa voltar ao trabalho, ela empurra o rapaz uma, duas vezes. Mas ele a mantém presa pelos pulsos e o beijo agora é ainda mais prolongado: carrega a marca das despedidas.


A doméstica da Agência de Turismo traz o filho pela mão. Deve ter oito ou nove anos a criança. Os dois entram sorridentes no 2432; o garoto recebe um apertão da recepcionista e apropria-se do bombom sobre a mesa. A seguir dedica a cada funcionária da casa um pouquinho da sua atenção e o direito a outras tantas guloseimas. Encontra a mãe de uniforme e preparando o café. O próximo passo é da responsabilidade do menino: ele entorna o líquido quente nas seis canequinhas e serve-o às moças da frente. A seguir, na cozinha, em volta da bancada, sentam-se mãe e filho a desfrutarem a primeira refeição do dia.




Houvesse o momento seguinte e a moça das botas vermelhas ensaiaria uma pose ingênua e buscaria o olhar de aprovação do fotógrafo.


Na seqüência, a mulher madura abraçaria o marido ao se confirmarem as expectativas e ambos traçariam os planos ali, antes mesmo que o médico os felicitasse.


A mulher esquálida levaria as duas mãos aos lábios e, aturdida, veria fichas e mais fichas amontoarem-se à sua frente.


O entregador de pizza seria alcançado pela loirinha de rabo de cavalo já virando o corredor e, por se tratar do horário de intervalo da namorada, ele a teria acompanhado aos beijos até a lanchonete.


Na Agência de Turismo, a doméstica e o filho dividiriam as gulodices e se fartariam de tanta doçura na mesa improvisada.



Mas o tempo ficara a dever aos que se encontravam naquele 24° andar. A explosão no prédio adiara para sempre todas as expectativas. Ainda assim a humanidade marcava seu gol de placa: entre tantas, salvara-se uma vida, ou melhor, duas por milagre. A mulher madura trazia o filho no ventre, a inseminação artificial dera resultado.


Escrevi esta crônica em 2004  em homenagem à data de 11 de setembro que ficou na história da humanidade. Em 1º de maio de 2011, Dia do Trabalho, volto a ela para celebrar uma nova data. Queira Deus, possa a humanidade vislumbrar um mundo diferente daqui pra frente. Fica o convite aos leitores deste blog: oremos por esta causa.
                                                                                                                                       Jacira Fagundes 









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