domingo, 21 de março de 2010

CARRINHO DE ROLIMÃ

O presente conto - Carrinho de rolimã - foi apresentado na Maratona de Histórias no Dia Internacional do Contador de Histórias.
O texto é um dos 22 contos da obra No Limite dos Sentidos - Editora Movimento - de autoria de Jacira Fagundes
Para adquirir o livro entre na Loja Virtual no site www.artistasgauchos.com.br .




Carrinho de rolimã



Quantas cantigas eu recordo ainda. A ciranda dando meia volta. E o pau no gato que eu atirei.





Mãeeee, ô mãeee, estou brincando aqui fora, deixa eu ficar mãe, com os guris que eles são meus amigos, eu não saio da frente de casa , tu pode me ver da janela, eu me cuido que eles de menina só gostam de nós duas, de mim e da Carlinda porque a Carlinda é que nem guri, e eu sei que pra ela um carrinho de rolimã é coisa fácil, por isso ela fez o dela e o meu também. Puxa vida, como é bom descer a lomba no meu carrinho de rolimã, todos juntos na calçada estreita fazendo um barulhão que fica zumbindo no ouvido da gente, mas mesmo assim eu escuto a vizinha falar pra minha mãe como ela deixa eu me juntar com a molecada que invade o descanso dos moradores, só não espero pra ver o que a mãe responde. Se fosse eu falava o que a senhora tem que ver com isso. Acho que é assim que minha mãe devia responder por que ninguém fica feliz como eu em cima do carrinho de rolimã com esse vento na minha cara e esse frio na espinha. Até me dá aperto no estômago e um gosto de coisa estragada na boca, eu acho que é por causa do atrito das rodinhas nas pedras ou então é do suado dos guris, mas catinga mesmo tem o Pedrão. Ô guri catinguento vai tomar banho! é o que a Carlinda diz na cara dele e ele nem envermelha, também com aquelas unhas sujas e os cabelos cheios de sebo, sabe que eu acho mesmo que a Carlinda tem razão? Ainda mais com esse calor não dá pra agüentar o Pedrão, só mesmo porque a gente é amigo, mas sou mais amiga é da Carlinda. Eu fico sem fala agora mesmo que ela me ajuda a sentar no carrinho e eu aprendo como fazer com as rodinhas da frente pra ter cuidado pra desviar dos canteiros e do muro e das pedras de ponta e dos buracos da calçada e não cair e me esfolar nos joelhos, que a mãe fica braba e não me deixa mais brincar porque a mãe implica não é com os guris, é com a Carlinda. Larga dessa guria sem-vergonha, ela diz, a minha mãe, mas eu tenho muito carinho pela Carlinda, é um faro uma com a outra, eu digo tudo pra ela que me acontece e ela me ensina uma porção de coisas. A Carlinda é um amor, Deus me livre a mãe saber que eu boto pó no rosto e uso o batom que a Carlinda me deu e até disfarçar os biquinhos do seio embaixo da camisola pros guris não debochar eu aprendi com a Carlinda, ela sabe que eu gosto de bala azedinha e ela ganha e me traz só porque eu gosto, rapadurinha de leite a mesma coisa, mas a mãe fica dizendo que eu e a Carlinda é uma esfregação porque eu e a Carlinda vivemos é de cochicho e de lambida uma na outra e a gente assim sempre de mãos dadas umas gurias grandes a mãe diz. Mas quando é pra mãe me bater e me espiar e me pôr de castigo eu sou pequena, eu não entendo mesmo a minha mãe. Ela me fala que tem sexto sentido e eu nem sei o que é isso e eu pergunto o que é sexto sentido, mãe? E ela retruca não me responde, sua desavergonhada . Eu fico calada, vou querer apanhar? Deus me proteja das mãos da minha mãe. A Carlinda sim que é grande que já tem seio redondo e cabelinho no sovaco que eu já vi no banho que ela me mostrou e eu nem senti nojo. E é por isso tudo que eu adoro a Carlinda e adoro nossas brincadeiras, o carrinho de rolimã e os guris da rua, todo mundo descendo a ladeira o vento na cara com as rodinhas soltando faísca nas pedras e a gente suando e fedendo e descendo e caindo e rolando e esfolando o joelho e o sangue escorrendo, Carlinda, me ajuda a mãe vai me ver vai zangar me abraça Carlinda me beija na boca depressa olha a mãe.

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