A Câmara de Vereadores do Município de Osório realiza no próximo dia 06/05 evento cultural onde será homenageado o menino Lucas Alves Cardoso, pela premiação no I Concurso Menino do Livro, patrocinado em 2009, pela autora do livro infanto-juvenil O Menino do Livro - Jacira Fagundes.
Lucas Alves Cardoso, de Santo Antonio da Patrulha, vencedor na categoria 07 a 10 anos, será um dos dois ilustradores da próxima obra de Jacira Fagundes, intitulada Histórias que Pintam, programada para o 2º semestre de 2010.
Veja abaixo no blog, em postagem de dezembro/2009, a ilustração vencedora na categoria, criação de Lucas Alves Cardoso.
Breve aqui serão postadas mais notícias e fotos do evento.
Aqui os leitores do blog poderão compartilhar com a literatura em paralelo às artes visuais. Textos, imagens, ilustrações, vídeos e experiências no campo da literatura e das artes em geral. Sintam-se à vontade para deixar perguntas e comentários. Toda apreciação será bem-vinda.
4ª feira do Livro de Capão da Canoa


A 4ª feira do Livro de Capão da Canoa, cujo slogan foi, neste ano de 2010, Literatura entre o Mar e a Lagoa, aconteceu na rua Pindorama, na cidade litorânea, entre os dias 27 de março e 04 de abril.
Na manhã do dia 30, a escritora Jacira Fagundes, atendendo convite da Comissão Organizadora da Feira, realizou oficina – A vez do conto –, que reuniu professores da rede de ensino municipal, alunos de segundo grau e público interessado.
“A vez do conto” visa expandir o interesse e a formação do hábito de leitura nas escolas públicas e particulares, com apoio no gênero de literatura– o conto – e sua forma mais reduzida – o mini conto.
Na ocasião, a professora Ana Rute dos Santos, participante da oficina e membro da Comissão Organizadora registrou as fotos do evento.
Sapatos, luvas e maledicências
Em tempo de campanha...sempre é bom lembrar...
Sapatos, luvas e maledicências
“Eu quero um sapato! Tudo sobre uma obsessão feminina” é o título que encontrei recentemente garimpando a livraria.A autora é italiana: Paola Jacobbi. De saída me surpreende que um livro que trate de sapatos como obsessão, consiga o fôlego de encher 136 páginas. Não é pouca coisa para um objeto singular, óbvio e despretencioso. O livro promete de tudo: curiosidades, fetiches, manias, consumidores, colecionadores, adoradores de sapato. A história remonta desde a fascinação do Príncipe por Cinderela, mais ofuscado pelo sapatinho de cristal do que pela bela figura da donzela.
Ela, a autora, justifica o tema: “o sapato apresenta uma enorme vantagem em relação à roupa. Você pode ser gorda ou magra, baixa ou alta, bonita ou feia, mas pode comprar todos os pares de sapatos que quiser”. Aqui o livro apresenta uma razão que me convence. Concordo, qualquer mulher concorda. Que alívio! Existe uma peça do vestuário feminino que independe da distância em que nos encontramos do padrão de beleza. E a gente não havia se dado conta. Aleluia!
Não é o caso da roupa em geral. A cada ano, a moda dita o que será moda. Nas cabeças dos estilistas, a figura da mulher etérea, pálida, translúcida, pernas longas, corpos quase desprovidos de quase tudo. Mulheres ideais que fazem a passarela da moda. Mas e as outras mulheres, a maioria? as que circulam fora das passarelas? Foi o aconteceu com as batinhas e blusinhas do último verão. Elas invadiram as lojas, delicadas, cobertas de fitas e rendas, lindas, umas graças. Mas para uma turminha muito restrita. As demais tiveram que ficar fora...da moda.
Lembro quando o jeans entrou para valer. Calças, bermudas, macacões, saias, jaquetas. Tudo de jeans, o paraíso. Parodiando a italiana, saí à caça: “Eu quero uma saia jeans!” Não calculei a distância em que me encontrava da normalidade. Aproveito para dizer que nem era tão grande, sou uma mulher nem magra nem gorda, comum, penso. Mas a balconista – não só aquela, fiz outras tentativas – me olhou como se eu fosse uma criatura imensa, disforme e mal intencionada. Algum tempo se passou até que a indústria entendesse que o investimento em peças de jeans em tamanhos que excediam o 38, poderia resultar em bom lucro.
Existe aquela expressão bem antiga, “serve como uma luva”, para referir-se às coisas que cabem com perfeição. No geral, as luvas costumam servir em qualquer mão. Espicha-se um pouco, encolhe-se outro tanto, e elas acabam servindo, mais ou menos justas, mais ou menos folgadas. Luvas são como sapatos. Roupa se veste. Luva se calça. Igual sapato. O dito popular se consagra ainda com maior rigor na questão da instabilidade política, da corrupção fermentando em diversos setores da vida pública, do descaso com os problemas cruciais do país. Temos presenciado acusações de todo porte, desrespeito, difamações, falácias, calúnias, escândalos. Temos convivido com extorsões, mentiras, roubalheiras, agiotagens, comodismo, falta de caráter e de vergonha na cara. E no governo hoje, parece que , senão tudo, quase tudo serve como uma luva para quase todos. Pode ser até que precise passar por algum ajuste, por um trespasse, valha-se de um desvio aqui e ali, mas com certeza, irá servir. Bem diferente da moda do último verão.
É uma lástima que a câmera na TV não aponte para os pés dos representantes do povo no Senado, na Câmara de Deputados, na de Vereadores, pés de todo este pessoal que está enchendo a imprensa pedindo votos. Seria interessante apreciar-lhes os sapatos justos, modelares, sóbrios, confortáveis, cômodos, de bom gosto e caros. Valeria para a italiana a chance de acrescentar outras 136 páginas em sua obra.
“Eu quero um sapato! Tudo sobre uma obsessão feminina” é o título que encontrei recentemente garimpando a livraria.A autora é italiana: Paola Jacobbi. De saída me surpreende que um livro que trate de sapatos como obsessão, consiga o fôlego de encher 136 páginas. Não é pouca coisa para um objeto singular, óbvio e despretencioso. O livro promete de tudo: curiosidades, fetiches, manias, consumidores, colecionadores, adoradores de sapato. A história remonta desde a fascinação do Príncipe por Cinderela, mais ofuscado pelo sapatinho de cristal do que pela bela figura da donzela.
Ela, a autora, justifica o tema: “o sapato apresenta uma enorme vantagem em relação à roupa. Você pode ser gorda ou magra, baixa ou alta, bonita ou feia, mas pode comprar todos os pares de sapatos que quiser”. Aqui o livro apresenta uma razão que me convence. Concordo, qualquer mulher concorda. Que alívio! Existe uma peça do vestuário feminino que independe da distância em que nos encontramos do padrão de beleza. E a gente não havia se dado conta. Aleluia!
Não é o caso da roupa em geral. A cada ano, a moda dita o que será moda. Nas cabeças dos estilistas, a figura da mulher etérea, pálida, translúcida, pernas longas, corpos quase desprovidos de quase tudo. Mulheres ideais que fazem a passarela da moda. Mas e as outras mulheres, a maioria? as que circulam fora das passarelas? Foi o aconteceu com as batinhas e blusinhas do último verão. Elas invadiram as lojas, delicadas, cobertas de fitas e rendas, lindas, umas graças. Mas para uma turminha muito restrita. As demais tiveram que ficar fora...da moda.
Lembro quando o jeans entrou para valer. Calças, bermudas, macacões, saias, jaquetas. Tudo de jeans, o paraíso. Parodiando a italiana, saí à caça: “Eu quero uma saia jeans!” Não calculei a distância em que me encontrava da normalidade. Aproveito para dizer que nem era tão grande, sou uma mulher nem magra nem gorda, comum, penso. Mas a balconista – não só aquela, fiz outras tentativas – me olhou como se eu fosse uma criatura imensa, disforme e mal intencionada. Algum tempo se passou até que a indústria entendesse que o investimento em peças de jeans em tamanhos que excediam o 38, poderia resultar em bom lucro.
Existe aquela expressão bem antiga, “serve como uma luva”, para referir-se às coisas que cabem com perfeição. No geral, as luvas costumam servir em qualquer mão. Espicha-se um pouco, encolhe-se outro tanto, e elas acabam servindo, mais ou menos justas, mais ou menos folgadas. Luvas são como sapatos. Roupa se veste. Luva se calça. Igual sapato. O dito popular se consagra ainda com maior rigor na questão da instabilidade política, da corrupção fermentando em diversos setores da vida pública, do descaso com os problemas cruciais do país. Temos presenciado acusações de todo porte, desrespeito, difamações, falácias, calúnias, escândalos. Temos convivido com extorsões, mentiras, roubalheiras, agiotagens, comodismo, falta de caráter e de vergonha na cara. E no governo hoje, parece que , senão tudo, quase tudo serve como uma luva para quase todos. Pode ser até que precise passar por algum ajuste, por um trespasse, valha-se de um desvio aqui e ali, mas com certeza, irá servir. Bem diferente da moda do último verão.
É uma lástima que a câmera na TV não aponte para os pés dos representantes do povo no Senado, na Câmara de Deputados, na de Vereadores, pés de todo este pessoal que está enchendo a imprensa pedindo votos. Seria interessante apreciar-lhes os sapatos justos, modelares, sóbrios, confortáveis, cômodos, de bom gosto e caros. Valeria para a italiana a chance de acrescentar outras 136 páginas em sua obra.
Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim...
Com alguns dias de atraso, desejando uma Feliz Pácoa!
Vai-se outro domingo de Páscoa. E as pegadas do coelhinho
em direção ao esconderijo cada vez menos visíveis
Às crianças, já não interessa a quantidade de ovos de chocolate que encontram nos ninhos no domingo de Páscoa – um ovo, dois ovos, três ovos, assim...
Sequer a cor viva, brilhante, os coloridos intensos dos ovinhos – azuis, amarelos e vermelhos também...
Menos ainda a canção que embalou dias e noites de espera, só aliviada no momento do encontro com o ninho, em que coelhinhos diligentes se incumbiram de encher na véspera, durante a calada da noite – Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim...
Somente depois de intensa busca, acompanhando ou não as quase imperceptíveis pegadas do coelho, é que curiosidade, surpresa e fantasia se misturavam à realidade. E então o ninho era ostentado com alegria, e tudo dava lugar ao encantamento.
As crianças de hoje, (exceção das bem pequenininhas que ainda não aprenderam o mecanismo peçonhento dos ovinhos de Páscoa) perderam este encantamento, o que, sem dúvida, é de se lastimar.
Entre as preferências destas crianças modernas estão, como nos revela a imprensa, em primeiro lugar, as marcas do chocolate, que necessitam ser famosas e disputadas através da mídia. Elas importam-se, mais do que com os novos ovos de chocolate, com os brinquedinhos ordinários escondidos em seu interior – pecinhas de montagem de algo desajeitado e vulgar, que geralmente são abandonadas devido à impossibilidade de encaixe ou mesmo por desinteresse momentâneo.
Para garantir que vocês – pais, padrinhos, tios e avós – façam a coisa certa, quer dizer, acertem nas marcas e nos pesos e ainda atentem com absoluta garantia, na observância do brinquedo surpresa que deverá constar no interior dos ovos, elas se fazem presentes em hora e local, substituindo os já não tão confiáveis coelhinhos da canção. Como exigentes investidores, conferem procedência, prazo de validade, vulnerabilidade de embalagens e decidem sobre a compra. A vocês – representantes financeiros dos coelhos – cabe o pagamento no caixa. Papai e mamãe, por receio de erro frente a seus pequenos, costumam concordar e sentir-se mais seguros com a interferência deles.
A surpresa, a busca, a curiosidade infantil e a fantasia que até aqui permearam as manhãs do domingo de Páscoa, que rumo tomaram? Provavelmente o rumo da indiferença. Porque a busca foi antecipada: aconteceu ali no super mercado, entre as muitas opções de peixes para a sexta-feira santa e de carnes para o churrasco de domingo; e o pouco de encantamento adquirido durante a transação ficou esquecido no carrinho, depois do caixa.
Ouso acreditar que talvez o afastamento destes e de tantos outros singelos rituais esteja concorrendo, junto a outras questões, para que alguns jovens e adolescentes de hoje, por solidão ou desencanto, tenham desistido, tão precocemente, da caça aos legítimos “ninhos de Páscoa” recheados de encantamento verdadeiro. E se atirem, inconsequentes, na busca de ninhos nefastos e infelizes, repletos de ovinhos recheados de brinquedinhos podres e mal encaixados.
em direção ao esconderijo cada vez menos visíveis
Às crianças, já não interessa a quantidade de ovos de chocolate que encontram nos ninhos no domingo de Páscoa – um ovo, dois ovos, três ovos, assim...
Sequer a cor viva, brilhante, os coloridos intensos dos ovinhos – azuis, amarelos e vermelhos também...
Menos ainda a canção que embalou dias e noites de espera, só aliviada no momento do encontro com o ninho, em que coelhinhos diligentes se incumbiram de encher na véspera, durante a calada da noite – Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim...
Somente depois de intensa busca, acompanhando ou não as quase imperceptíveis pegadas do coelho, é que curiosidade, surpresa e fantasia se misturavam à realidade. E então o ninho era ostentado com alegria, e tudo dava lugar ao encantamento.
As crianças de hoje, (exceção das bem pequenininhas que ainda não aprenderam o mecanismo peçonhento dos ovinhos de Páscoa) perderam este encantamento, o que, sem dúvida, é de se lastimar.
Entre as preferências destas crianças modernas estão, como nos revela a imprensa, em primeiro lugar, as marcas do chocolate, que necessitam ser famosas e disputadas através da mídia. Elas importam-se, mais do que com os novos ovos de chocolate, com os brinquedinhos ordinários escondidos em seu interior – pecinhas de montagem de algo desajeitado e vulgar, que geralmente são abandonadas devido à impossibilidade de encaixe ou mesmo por desinteresse momentâneo.
Para garantir que vocês – pais, padrinhos, tios e avós – façam a coisa certa, quer dizer, acertem nas marcas e nos pesos e ainda atentem com absoluta garantia, na observância do brinquedo surpresa que deverá constar no interior dos ovos, elas se fazem presentes em hora e local, substituindo os já não tão confiáveis coelhinhos da canção. Como exigentes investidores, conferem procedência, prazo de validade, vulnerabilidade de embalagens e decidem sobre a compra. A vocês – representantes financeiros dos coelhos – cabe o pagamento no caixa. Papai e mamãe, por receio de erro frente a seus pequenos, costumam concordar e sentir-se mais seguros com a interferência deles.
A surpresa, a busca, a curiosidade infantil e a fantasia que até aqui permearam as manhãs do domingo de Páscoa, que rumo tomaram? Provavelmente o rumo da indiferença. Porque a busca foi antecipada: aconteceu ali no super mercado, entre as muitas opções de peixes para a sexta-feira santa e de carnes para o churrasco de domingo; e o pouco de encantamento adquirido durante a transação ficou esquecido no carrinho, depois do caixa.
Ouso acreditar que talvez o afastamento destes e de tantos outros singelos rituais esteja concorrendo, junto a outras questões, para que alguns jovens e adolescentes de hoje, por solidão ou desencanto, tenham desistido, tão precocemente, da caça aos legítimos “ninhos de Páscoa” recheados de encantamento verdadeiro. E se atirem, inconsequentes, na busca de ninhos nefastos e infelizes, repletos de ovinhos recheados de brinquedinhos podres e mal encaixados.
O que pesa mais?
Noticiado na imprensa que está em fase de ser implantada uma lei obrigando donos de carroças a fazerem uso de fraldas em seus cavalos para circular em zona urbana.
E se extendessem a referida lei aos cachorros e cadelas? Animais desta espécie circulam por toda parte em número cada vez mais elevado e fariam a alegria dos donos ao parecerem-se ainda mais com bebês.
Há histórias, provavelmente de meias verdades, ou fatos não comprovados, como se queira, que assolam a imprensa com certa insistência. Em geral, envolvem crianças. É o caso que reaparece, desta vez na Rússia, de menino alimentado e criado por um cachorro. Consideremos a vida canina de um bebê em tais condições, independente da veracidade do fato. Se a criança não tem como exemplo um ser da própria espécie, e sim o cachorro é que lhe serve de modelo, ela só poderá aprender com o animal, por imitação. Assim, menino e animal se comunicam por toques, afagos, lambidas, e naturalmente, latidos. Alimentam-se do que encontram no chão, pelo caminho: ambos carnívoros, realizam a devida seleção farejando. E locomovem-se, usando os membros inferiores e superiores alternadamente, porém de quatro. A despeito de algumas diferenças, não se pode afirmar que o comportamento destas crianças sejam impróprios ou inaceitáveis. Até porque, os bebês criados por humanos, engatinham – estamos habituados ao gato por referência, poderia ser o cachorro, então diríamos, cachorrinham – , mordem, e fazem uso de linguagem incompreensível ao se comunicarem.
Certamente, há que se levantar a questão da hereditariedade. A criança em geral, ao atingir uma fase, digamos, mais racional – isto pode se dar por volta dos cinco, seis anos de vida – rejeitará naturalmente a conduta irracional. Então virá à tona o ser humano que lhe é intrínseco, próprio e permanente. Aquele que todos conhecemos.
Poderíamos nos indagar a respeito dos novos hábitos que tal criança assimilasse. Se ela usaria as mãos com desenvoltura para apreensão do alimento antes de levá-lo à boca, se faria do corpo laboratório e tentaria apoiar-se sobre as pernas sem a ajuda das mãos adotando finalmente postura de bípede, e , dando-se conta da ausência de pelos, se ela colocaria trapos sobre si, consciente da necessidade de abrigar-se. Tudo isso provindo de um preceito absoluto, de um discernimento restrito aos humanos por herança genética.
É fato relatado no decorrer da história na Rússia, que o menino foi resgatado em dado momento e levado a um orfanato, onde adquiriu conduta própria aos racionais: come, dorme, fala, brinca como as outras crianças. Anda, e ainda de quebra, joga futebol. Quiçá virá a ser um craque. Desta feita, seria mais sensato apoiarmo-nos no processo educacional, onde o indivíduo realiza a aprendizagem com base em modelo, ao invés de considerarmos conclusiva a pronta adaptação ao que é hereditário. O cão oportunizou a primeira aprendizagem, e a outra veio a seguir, no orfanato, entre os da mesma espécie. Mas é incontestável o papel da hereditariedade: a segunda chance só foi um sucesso por tratar-se de um menino. Isto não se obteria caso o cão fosse o aprendiz.
É importante salientar o quanto hoje em dia, há humanos que se frustram por não conseguirem fazer de seus cãezinhos, bebês de verdade, malgrado toda sorte de artifícios: fitinhas multicoloridas, tiaras, esmalte de unhas, vestidinhos e polainas, brinquedinhos, berços com dossel. Tais animais de estimação, apesar do investimento em sociabilidade, continuam latindo, e mesmo que lhes seja apresentado o alimento em pratos de design arrojado, ainda assim o consomem à moda canina.
Se aos cachorros – ou gatos, papagaios, ratinhos brancos, enfim –, negam-se os atos ditados pela razão, podemos usar tal assertiva a nosso favor. Como? Domesticando-os, fazendo-os nossos amigos incondicionais, até que a morte nos separe. Ao contrário das crianças (ou pessoas em geral) que sempre nos cobram os deslizes, e mais: são avessas a qualquer conformismo.
Bastaria então considerar a hereditariedade como determinante do comportamento, tanto para irracionais como racionais? Ou certo seria assegurar o domínio da educação e socialização? O que pesa mais? Não há, em minha opinião, uma balança eficaz para definir tal medida. Há, sim, uma combinação dentro da dualidade. Por vezes os aspectos hereditários estão mais evidentes, falam mais alto, à revelia. Em outras ocasiões a educação dá o tom, abranda, recua, compartilha, encoraja. São o racional e o irracional em mútuo entendimento –meninos e cachorros –, tais como os conhecemos.
E se extendessem a referida lei aos cachorros e cadelas? Animais desta espécie circulam por toda parte em número cada vez mais elevado e fariam a alegria dos donos ao parecerem-se ainda mais com bebês.
Há histórias, provavelmente de meias verdades, ou fatos não comprovados, como se queira, que assolam a imprensa com certa insistência. Em geral, envolvem crianças. É o caso que reaparece, desta vez na Rússia, de menino alimentado e criado por um cachorro. Consideremos a vida canina de um bebê em tais condições, independente da veracidade do fato. Se a criança não tem como exemplo um ser da própria espécie, e sim o cachorro é que lhe serve de modelo, ela só poderá aprender com o animal, por imitação. Assim, menino e animal se comunicam por toques, afagos, lambidas, e naturalmente, latidos. Alimentam-se do que encontram no chão, pelo caminho: ambos carnívoros, realizam a devida seleção farejando. E locomovem-se, usando os membros inferiores e superiores alternadamente, porém de quatro. A despeito de algumas diferenças, não se pode afirmar que o comportamento destas crianças sejam impróprios ou inaceitáveis. Até porque, os bebês criados por humanos, engatinham – estamos habituados ao gato por referência, poderia ser o cachorro, então diríamos, cachorrinham – , mordem, e fazem uso de linguagem incompreensível ao se comunicarem.
Certamente, há que se levantar a questão da hereditariedade. A criança em geral, ao atingir uma fase, digamos, mais racional – isto pode se dar por volta dos cinco, seis anos de vida – rejeitará naturalmente a conduta irracional. Então virá à tona o ser humano que lhe é intrínseco, próprio e permanente. Aquele que todos conhecemos.
Poderíamos nos indagar a respeito dos novos hábitos que tal criança assimilasse. Se ela usaria as mãos com desenvoltura para apreensão do alimento antes de levá-lo à boca, se faria do corpo laboratório e tentaria apoiar-se sobre as pernas sem a ajuda das mãos adotando finalmente postura de bípede, e , dando-se conta da ausência de pelos, se ela colocaria trapos sobre si, consciente da necessidade de abrigar-se. Tudo isso provindo de um preceito absoluto, de um discernimento restrito aos humanos por herança genética.
É fato relatado no decorrer da história na Rússia, que o menino foi resgatado em dado momento e levado a um orfanato, onde adquiriu conduta própria aos racionais: come, dorme, fala, brinca como as outras crianças. Anda, e ainda de quebra, joga futebol. Quiçá virá a ser um craque. Desta feita, seria mais sensato apoiarmo-nos no processo educacional, onde o indivíduo realiza a aprendizagem com base em modelo, ao invés de considerarmos conclusiva a pronta adaptação ao que é hereditário. O cão oportunizou a primeira aprendizagem, e a outra veio a seguir, no orfanato, entre os da mesma espécie. Mas é incontestável o papel da hereditariedade: a segunda chance só foi um sucesso por tratar-se de um menino. Isto não se obteria caso o cão fosse o aprendiz.
É importante salientar o quanto hoje em dia, há humanos que se frustram por não conseguirem fazer de seus cãezinhos, bebês de verdade, malgrado toda sorte de artifícios: fitinhas multicoloridas, tiaras, esmalte de unhas, vestidinhos e polainas, brinquedinhos, berços com dossel. Tais animais de estimação, apesar do investimento em sociabilidade, continuam latindo, e mesmo que lhes seja apresentado o alimento em pratos de design arrojado, ainda assim o consomem à moda canina.
Se aos cachorros – ou gatos, papagaios, ratinhos brancos, enfim –, negam-se os atos ditados pela razão, podemos usar tal assertiva a nosso favor. Como? Domesticando-os, fazendo-os nossos amigos incondicionais, até que a morte nos separe. Ao contrário das crianças (ou pessoas em geral) que sempre nos cobram os deslizes, e mais: são avessas a qualquer conformismo.
Bastaria então considerar a hereditariedade como determinante do comportamento, tanto para irracionais como racionais? Ou certo seria assegurar o domínio da educação e socialização? O que pesa mais? Não há, em minha opinião, uma balança eficaz para definir tal medida. Há, sim, uma combinação dentro da dualidade. Por vezes os aspectos hereditários estão mais evidentes, falam mais alto, à revelia. Em outras ocasiões a educação dá o tom, abranda, recua, compartilha, encoraja. São o racional e o irracional em mútuo entendimento –meninos e cachorros –, tais como os conhecemos.
CARRINHO DE ROLIMÃ
O presente conto - Carrinho de rolimã - foi apresentado na Maratona de Histórias no Dia Internacional do Contador de Histórias.
O texto é um dos 22 contos da obra No Limite dos Sentidos - Editora Movimento - de autoria de Jacira Fagundes
Para adquirir o livro entre na Loja Virtual no site www.artistasgauchos.com.br .
Carrinho de rolimã
Quantas cantigas eu recordo ainda. A ciranda dando meia volta. E o pau no gato que eu atirei.
Mãeeee, ô mãeee, estou brincando aqui fora, deixa eu ficar mãe, com os guris que eles são meus amigos, eu não saio da frente de casa , tu pode me ver da janela, eu me cuido que eles de menina só gostam de nós duas, de mim e da Carlinda porque a Carlinda é que nem guri, e eu sei que pra ela um carrinho de rolimã é coisa fácil, por isso ela fez o dela e o meu também. Puxa vida, como é bom descer a lomba no meu carrinho de rolimã, todos juntos na calçada estreita fazendo um barulhão que fica zumbindo no ouvido da gente, mas mesmo assim eu escuto a vizinha falar pra minha mãe como ela deixa eu me juntar com a molecada que invade o descanso dos moradores, só não espero pra ver o que a mãe responde. Se fosse eu falava o que a senhora tem que ver com isso. Acho que é assim que minha mãe devia responder por que ninguém fica feliz como eu em cima do carrinho de rolimã com esse vento na minha cara e esse frio na espinha. Até me dá aperto no estômago e um gosto de coisa estragada na boca, eu acho que é por causa do atrito das rodinhas nas pedras ou então é do suado dos guris, mas catinga mesmo tem o Pedrão. Ô guri catinguento vai tomar banho! é o que a Carlinda diz na cara dele e ele nem envermelha, também com aquelas unhas sujas e os cabelos cheios de sebo, sabe que eu acho mesmo que a Carlinda tem razão? Ainda mais com esse calor não dá pra agüentar o Pedrão, só mesmo porque a gente é amigo, mas sou mais amiga é da Carlinda. Eu fico sem fala agora mesmo que ela me ajuda a sentar no carrinho e eu aprendo como fazer com as rodinhas da frente pra ter cuidado pra desviar dos canteiros e do muro e das pedras de ponta e dos buracos da calçada e não cair e me esfolar nos joelhos, que a mãe fica braba e não me deixa mais brincar porque a mãe implica não é com os guris, é com a Carlinda. Larga dessa guria sem-vergonha, ela diz, a minha mãe, mas eu tenho muito carinho pela Carlinda, é um faro uma com a outra, eu digo tudo pra ela que me acontece e ela me ensina uma porção de coisas. A Carlinda é um amor, Deus me livre a mãe saber que eu boto pó no rosto e uso o batom que a Carlinda me deu e até disfarçar os biquinhos do seio embaixo da camisola pros guris não debochar eu aprendi com a Carlinda, ela sabe que eu gosto de bala azedinha e ela ganha e me traz só porque eu gosto, rapadurinha de leite a mesma coisa, mas a mãe fica dizendo que eu e a Carlinda é uma esfregação porque eu e a Carlinda vivemos é de cochicho e de lambida uma na outra e a gente assim sempre de mãos dadas umas gurias grandes a mãe diz. Mas quando é pra mãe me bater e me espiar e me pôr de castigo eu sou pequena, eu não entendo mesmo a minha mãe. Ela me fala que tem sexto sentido e eu nem sei o que é isso e eu pergunto o que é sexto sentido, mãe? E ela retruca não me responde, sua desavergonhada . Eu fico calada, vou querer apanhar? Deus me proteja das mãos da minha mãe. A Carlinda sim que é grande que já tem seio redondo e cabelinho no sovaco que eu já vi no banho que ela me mostrou e eu nem senti nojo. E é por isso tudo que eu adoro a Carlinda e adoro nossas brincadeiras, o carrinho de rolimã e os guris da rua, todo mundo descendo a ladeira o vento na cara com as rodinhas soltando faísca nas pedras e a gente suando e fedendo e descendo e caindo e rolando e esfolando o joelho e o sangue escorrendo, Carlinda, me ajuda a mãe vai me ver vai zangar me abraça Carlinda me beija na boca depressa olha a mãe.
O texto é um dos 22 contos da obra No Limite dos Sentidos - Editora Movimento - de autoria de Jacira Fagundes
Para adquirir o livro entre na Loja Virtual no site www.artistasgauchos.com.br .
Carrinho de rolimã
Quantas cantigas eu recordo ainda. A ciranda dando meia volta. E o pau no gato que eu atirei.
Mãeeee, ô mãeee, estou brincando aqui fora, deixa eu ficar mãe, com os guris que eles são meus amigos, eu não saio da frente de casa , tu pode me ver da janela, eu me cuido que eles de menina só gostam de nós duas, de mim e da Carlinda porque a Carlinda é que nem guri, e eu sei que pra ela um carrinho de rolimã é coisa fácil, por isso ela fez o dela e o meu também. Puxa vida, como é bom descer a lomba no meu carrinho de rolimã, todos juntos na calçada estreita fazendo um barulhão que fica zumbindo no ouvido da gente, mas mesmo assim eu escuto a vizinha falar pra minha mãe como ela deixa eu me juntar com a molecada que invade o descanso dos moradores, só não espero pra ver o que a mãe responde. Se fosse eu falava o que a senhora tem que ver com isso. Acho que é assim que minha mãe devia responder por que ninguém fica feliz como eu em cima do carrinho de rolimã com esse vento na minha cara e esse frio na espinha. Até me dá aperto no estômago e um gosto de coisa estragada na boca, eu acho que é por causa do atrito das rodinhas nas pedras ou então é do suado dos guris, mas catinga mesmo tem o Pedrão. Ô guri catinguento vai tomar banho! é o que a Carlinda diz na cara dele e ele nem envermelha, também com aquelas unhas sujas e os cabelos cheios de sebo, sabe que eu acho mesmo que a Carlinda tem razão? Ainda mais com esse calor não dá pra agüentar o Pedrão, só mesmo porque a gente é amigo, mas sou mais amiga é da Carlinda. Eu fico sem fala agora mesmo que ela me ajuda a sentar no carrinho e eu aprendo como fazer com as rodinhas da frente pra ter cuidado pra desviar dos canteiros e do muro e das pedras de ponta e dos buracos da calçada e não cair e me esfolar nos joelhos, que a mãe fica braba e não me deixa mais brincar porque a mãe implica não é com os guris, é com a Carlinda. Larga dessa guria sem-vergonha, ela diz, a minha mãe, mas eu tenho muito carinho pela Carlinda, é um faro uma com a outra, eu digo tudo pra ela que me acontece e ela me ensina uma porção de coisas. A Carlinda é um amor, Deus me livre a mãe saber que eu boto pó no rosto e uso o batom que a Carlinda me deu e até disfarçar os biquinhos do seio embaixo da camisola pros guris não debochar eu aprendi com a Carlinda, ela sabe que eu gosto de bala azedinha e ela ganha e me traz só porque eu gosto, rapadurinha de leite a mesma coisa, mas a mãe fica dizendo que eu e a Carlinda é uma esfregação porque eu e a Carlinda vivemos é de cochicho e de lambida uma na outra e a gente assim sempre de mãos dadas umas gurias grandes a mãe diz. Mas quando é pra mãe me bater e me espiar e me pôr de castigo eu sou pequena, eu não entendo mesmo a minha mãe. Ela me fala que tem sexto sentido e eu nem sei o que é isso e eu pergunto o que é sexto sentido, mãe? E ela retruca não me responde, sua desavergonhada . Eu fico calada, vou querer apanhar? Deus me proteja das mãos da minha mãe. A Carlinda sim que é grande que já tem seio redondo e cabelinho no sovaco que eu já vi no banho que ela me mostrou e eu nem senti nojo. E é por isso tudo que eu adoro a Carlinda e adoro nossas brincadeiras, o carrinho de rolimã e os guris da rua, todo mundo descendo a ladeira o vento na cara com as rodinhas soltando faísca nas pedras e a gente suando e fedendo e descendo e caindo e rolando e esfolando o joelho e o sangue escorrendo, Carlinda, me ajuda a mãe vai me ver vai zangar me abraça Carlinda me beija na boca depressa olha a mãe.
Assinar:
Postagens (Atom)
-
O ano de 2023 foi um ano pródigo para duas participantes dos Encontros de Produção Literária que venho liderando, com vistas à pr...
